sábado, 8 de outubro de 2016

Jesus e Lázaro, pequena contradição

Parece existir uma pequena contradição nos relatos do evangelho de João
capítulos 11 e 12.

Em João 11:

1º) Maria unge os pés de Jesus e enxuga com os seus cabelos;

2º) Jesus ressuscita Lázaro.

Em João 12:

1º) Jesus ressuscita Lázaro;

2º) Maria unge os pés de Jesus e enxuga com seus cabelos.

As aparentes contradições devem funcionar como um interesse a mais
para quem ama e se dedica ao estudo da Palavra.

Obrigado.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Mistérios

Todas as religiões exploram o lado misterioso.

O mistério da reencarnação, da vida após a morte, do Deus que se fez carne e habitou entre os homens, da ressurreição do Salvador.

O mistério fortalece as instituições, cria dependência, gera veneração através do medo.

O mistério foi o grande negócio de mídia da Idade Média, da qual ainda hoje guardamos
muito de sua influência.

O ensino simples e direto de Jesus foi, logo após a sua morte, sendo
revestido de uma áurea de mistério, um apelo ao mundo dos mortos,
à gloria do reino do divino.

O mistério do pecado e da morte criou o antídoto da graça e da vida eterna a ser diligentemente ministrado pela Igreja.

Uma religião sem mistério não tem graça, tal qual uma vida sem mistério é chata.

Mistério é poder, capacidade de dominar e manipular.

Graças a Deus os evangelhos não têm mistério. Podem ser lidos e entendidos
por todos aqueles que querem simplesmente seguir os passos de Jesus.

Os únicos mistérios que Jesus nos legou, através dos evangelhos, foram: amar o próximo,
socorrer as pessoas nas suas necessidades, rejeitar a corrupção, abraçar o ideal
pelo próximo acima de tudo.

Mas, convenhamos, estes "mistérios" não criam instituições, não geram prestígio político,
não acumulam riqueza.

Quiçá sejam os nossos mistérios voltados para o serviço ao próximo e, consequentemente,
a Deus.

Obrigado.
arquiteto2016@outlook.com



terça-feira, 27 de setembro de 2016

O Jesus histórico

A bíblia nos dá algumas pistas que podem ser úteis para formatar o Jesus histórico.
Não são muitas pistas, nem conclusivas, mas acredito que todo cristão deve ter curiosidade
para entender um pouco como o homem Jesus vivia.
Sempre que fazemos um amigo nos interessamos em saber coisas sobre ele (onde mora, o que faz,
se trabalha, sua rotina, sua família...). Não deveria ser diferente com o Jesus histórico, já que as pessoas geralmente têm se contentado em admitir apenas que Ele é o Salvador, Deus, Messias, O Enviado, e só... o Jesus histórico ainda permanece um tabu nos meios religiosos.

Vamos ver algumas pistas:

1.Jesus era Mestre.

Ele era constantemente chamado, com reverência, de Mestre, não apenas pelos discípulos, mas principalmente, pelos maiorais do Templo, escribas, fariseus. Era convidado por estes para ceiar em suas casas, provavelmente depois da preleção da Escritura, e em alguns momentos Jesus mostra intimidade com esta elite religiosa a ponto de entrar voluntariamente na casa de um fariseu e logo ser reverenciado pelo dono desta casa.
Isso demonstra que Jesus era um homem de refinamento, cultura, bom gosto, trajes apropriados a quem era Mestre no Templo (e não os andrágios toscos que costumamos ver nas representações).
Tanto Jesus era uma pessoa de status social e prestígio que o seu julgamento foi conduzido de forma o mais cerimonial possível, levado à presença das maiores autoridades que governavam a judeia: o Sumo Sacerdote, o governador Herodes e o representante do próprio César, Pilatos.
Pode-se comparar o tratamento dado a Jesus, no seu julgamento, e o dado a João Batista, que, como outros "agitadores" que se insurgiam como o messias, foram simplesmente capturados e sumariamente executados em prisões e calabouços.

2.Jesus ensinava no templo todos os dias.

Jesus estudou, se graduou, e portanto tinha um ofício que lhe garantia uma renda. Certamente a
cátedra de Mestre não era um ofício voluntário, mas bem remunerado.
Vale observar que Jesus ensinava no Templo, mas não aprendia lá. À noite ele ia para o monte "meditar e orar". É de onde provinha sua sabedoria.

3.Jesus fundou uma companhia independente.

Paralelamente ao seu ofício de mestre no templo, Jesus reuniu alguns discípulos (provavelmente mais do que 12, já que esse número é simbólico associado às 12 tribos de Israel) e fundou uma companhia itinerante.
Essa companhia "batizava", o que significa que havia uma mensagem de salvação e aceitação. Essa mensagem provavelmente esteja associada à mesma mensagem de João: "arrependei-vos e crede no evangelho".

4.Jesus tinha necessidades normais de qualquer ser humano.

No encontro com a mulher samaritana (João 4), é dito que Jesus parou junto à fonte de Jacó porque estava "cansado do caminho".
Mais adiante é dito que ele estava sozinho, no encontro com a samaritana, porque os discípulos "tinham ido à cidade comprar comida".
Um Jesus real, humano, que sente fome, sede, cansaço. Uma companhia que tem recursos financeiros (Judas era o responsável pela bolsa = caixa), portanto tem renda, organização, planejamento e objetivos.

Uma história real, de um Jesus real, vivo e humano.
Não um Deus que se fez homem, mas um Homem que se fez Deus pela sua mensagem e atitudes.

Obrigado.

Comentários: arquiteto2016@outlook.com




segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Cristianismo e escravidão

Em Colossense 4:1 há uma advertência para que os senhores sejam justos e retos com seus escravos.

Em Gálatas 3:28 Paulo defende a ideia de que todos são filhos de Deus pela fé em Cristo, não havendo discriminação étnica (gregos ou hebreus), de gênero (macho e fêmea) ou condição social (escravos e livres).

Paulo reconhece a instituição da escravidão e como ela é importante para a manutenção da base econômica e política de sua época.

Os escritos de Paulo estão em sintonia com o status político e o contexto econômico-social de Roma ao declarar que os crentes em Jesus devem ser obedientes aos governos seculares e que os escravos devem ser tratados com humanidade, mas não alforriados.

arquiteto2016@outlook.com

domingo, 24 de julho de 2016

Adoração?

Por que a atitude de adorar é o ponto central da vida cristã?

Adoração é uma atitude do espírito ou das emoções,
já que ela começa na mente, envolve o pensamento
no objeto a ser adorado, e se reflete em atos externos?

No que pensamos quando adoramos? Precisamos formar em nossa mente o objeto 
a ser adorado.
Este objeto deve ter características reconhecidas culturalmente como boas:
ele deve ser bondoso, justo, pai, distante mas zeloso, forte, suplante nossas deficiências
e limitações (um super humano). Deve ser "homem", branco.
Deve ter um olhar severo que inspire não apenas respeito mas medo.

Nos evangelhos Jesus não pedia ou incentivava para ser adorado.
Ao contrário, ele exigia o anonimato quando dizia a alguém que
acabava de ser curado que não o revelasse.
Jesus repreendeu o jovem rico ao reverenciá-lo como Bom 
("porque me chamas Bom? Bom só há um, que é o Pai).
Jesus ensinava que o menor é o maior e que o servo é maior
no reino de Deus do que o que é servido.

Então porque as religiões se fixam em atos de adoração?

Lendo os evangelhos percebemos que a missão de Jesus era ENSINAR.
Jesus frequentava as sinagogas para ensinar, escolheu os 12 para
os ensinar, se sentava frente às multidões para ensinar.

Jesus ensinava o mesmo que João: o Reino de Deus está próximo.

E esta proximidade era bem próxima mesmo. Deveria acontecer
antes que todos daquela geração morressem (cerca de 40/50 anos
dos contemporâneos de Jesus) e não em um futuro longínquo
como aqueles que tinham a expectativa de um Reino fabuloso, 
de reis e exércitos, esperava.

O Reino de Deus realmente chegou: são as atitudes de todos nós
frente às injustiças, o amor ao próximo, a assistência ao necessitado,
os gestos de caridade... este é o reino que Jesus deu início.

Atos excessivos de adoração desviam
a responsabilidade de viver dia a dia o evangelho.

Quando a religião deixou de ensinar e passou a fazer da adoração o ponto
alto da vida cristã?

O que Jesus ensinava?

Jesus ensinava aquilo que EU posso ensinar ao meu próximo: ter esperança.
Ensinar que o reino de Deus está aqui, agora, e que é um CAMINHO
a ser percorrido de influência primeiro na sua família depois
na sociedade.

Amém
arquiteto2016@outlook.com 





segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Confissão Luterana

Acabei de ler um livro bastante didático sobre a confissão luterana.
Seu nome é: "As Confissões Luteranas: Introdução", de Gunther Gassmann e Scott Hendrix, Ed. Sinodal.
Aprendi principalmente que o luteranismo é tradicionalmente ecumênico.
A condição ecumenica, diferentemente do que é interpretada por certas denominações, não se refere a algo ruim, mas a um diálogo entre diversificadas correntes de pensamento religiosos visando o bem comum para a humanidade.
O luteranismo é uma instituição forte, bem definida teologicamente, com uma identidade bem delineada desde a Reforma, no século XVI, mantendo as suas características próprias sem porém ser hermética, tradicionalista ou inflexível diante dos desafios da contemporaneidade.
Foi um grande prazer conhecer as bases desta história e entender como a instituição atua hoje em questões não apenas teológicas, mas sociais no mundo através da Fundação Luterana Mundial.
Parabéns aos luteranos! 

Comentários: pereirarquiteto@ig.com.br

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Deus revelado

A visão da Cabalá, trazida pelo Rabino Aaron, e a visão do teólogo José Castillo nos falam basicamente a mesma coisa: que Deus se revela ao mundo através do humano.
 
O ato da kenósis (despojamento de Deus de sua Transcendência e poder para descer ao nível da humanidade), revelada em Jesus (que a transmitiu à nós), nos inspira a vivermos e experimentarmos essa encarnação de tal forma que possamos revelar Deus ao mundo no nosso dia-a-dia, nas nossas relações humanas, enfim, em tudo que falamos, fazemos e pensamos.
 
José nos coloca a seguinte proposição: no final de tudo, no Juízo bíblico, não seremos cobrados pelo que fizemos ou deixamos de fazer a Deus, mas o que fizemos ou deixamos de fazer às pessoas com quem nos relacionamos.
 
"porque estive nu, com fome, preso... e não me vestistes, alimentastes ou libertaste..." Mateus 25.
 
 
 
 
 
Fontes citadas na postagem anterior.
 
Comentários também podem ser enviados para pereirarquiteto@ig.com.br

terça-feira, 21 de julho de 2015

A revelação do divino (Cabalá x Jesus)

Na interpretação da Cabalá, apresentado pelo Rabino Aaron, o Transcendente se apresenta também como o Imanente, aquele que habita no homem, se expressando através dele com atos de bondade, amor e compreensão, num processo de "panenteísmo", palavra derivada de pan (tudo), en (dentro) e teo (deus).

Já o teólogo José Castillo nos apresenta Jesus como aquele em quem o divino se revelou no homem através de atos de amor, mudando de forma radical o conceito que o judaísmo fazia sobre Deus como Aquele que se vinga, que odeia os inimigos de seu povo, que escolhe e exclui.


Ambas interpretações têm, como ponto em comum, que Deus não está distante, separado do homem, mas habita a humanidade e se revela através dela.

O ponto discordante nos parece ser, porém, que a Cabalá afirma que a imanência é uma nova interpretação dada pelos textos judaicos pós-exílio ao monoteísmo, uma interpretação que já existia desde sempre mas que só após a apreensão do conceito de que Deus é Uno se poderia ter, enquanto o teólogo José afirma que a imanência se fez a partir da humanização do divino na pessoa humana de Jesus e só a partir de então as pessoas passaram a ter uma nova interpretação de Deus como aquele que ama a todos indiscriminadamente.

Como questionamentos propomos o seguinte:

1.Se Deus se revelou só a partir de Jesus, como afirma José, o que existia anteriormente eram apenas especulações mal formuladas do divino presente no judaísmo?

2.Se o Deus amor e bondade já era preexistente a Jesus, como afirma a Cabalá, que importância teria a revelação do divino em Jesus, ainda que para o judaísmo Ele não represente o Messias?

Fonte:

1.Aaron, Rabino David. "A Vida Secreta de Deus", Ed. Sêfer;
2.Castillo, José M. "Jesus, A Humanização de Deus", Ed. Vozes.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Resultados

As instituições sobrevivem de resultados.

Instruir os fieis a construir, dentro de si, nos seus pensamentos e atitudes do dia a dia, o caráter de Deus, ensinando que todos nós somos uma centelha de Deus e que precisamos expressar Deus em nossas ações a cada momento não produz resultados imediatos, portanto não interessa à instituição.

A fé em Cristo para se salvar do inferno, isto sim, produz resultados imediatos.

O medo de morrer sem salvação leva as pessoas a procurarem a instituição em busca de redenção instantânea, e esta redenção deve ser renovada a cada culto, a cada ida a esta instituição, atendendo aos dogmas e contribuindo financeiramente para a existência desta organização.

No fundo, uma reedição da venda de indulgências combatida por Lutero no século XVI durante o movimento protestante.

Em consequência há um êxtase coletivo, como aquele êxtase produzido pelas drogas.

Ninguém questiona, ninguém evolui, ninguém contesta... por causa do MEDO.

É o princípio do medo que faz com que as instituições se estabeleçam, com todas as suas regras e hierarquias e privilégios.

Satanás e tudo associado a ele (inferno, tentação, doenças, etc) serve bem a este propósito ao ponto de podemos questionar se o diabo não é o principal acionista (sócio) das principais instituições eclesiásticas.

Assim como numa escola construir o saber é uma tarefa difícil e negligenciada pelas instituições de educação, preferindo-se os resultados imediatos que a ameaça de perder o ano produz, as instituições religiosas negligenciam a construção do caráter de Cristo.

"De tudo o que se têm ouvido, o fim é: teme a Deus e guarda os Seus mandamentos; porque este é o dever de todo homem." Eclesiastes 12:13

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Essência da vida

Salomão, a quem se atribui ter escrito o livro de Eclesiastes, afirma:
"... não há limites para fazer livros... (Ecl. 12:12).

E ainda: "De tudo o que se tem ouvido, o fim é: teme a Deus e guarda os seus mandamentos; porque este é o dever de todo homem." (Ecl. 12:13).

O homem tem um caminho e um dever: seu caminho não tem limites, porque o conhecimento não tem fim; seu dever é a busca incessante e incansável pela essência da vida, e essa busca só pode acontecer fora se si mesmo, além das coisas que são visíveis.

O homem foi feito para CAMINHAR... caminhar sempre, sem nunca parar diante de "verdades" ditas como absolutas, imutáveis e inquestionáveis. É no caminhar que consiste o sentido da vida, e não no chegar em algum lugar.

Assim o filósofo grego contemporâneo, Nikos Kazantizakis expressou sua busca:

"Por uma só coisa anseio:
aprender o que se esconde atrás dos fenômenos;
desvendar o mistério que me dá a vida e a morte;
saber se uma presença invisível e imota se esconde além do fluxo visível e incessante do mundo.

Pergunto e torno a perguntar, golpeando o caos:
quem nos planta nessa terra sem pedir licença?
Quem nos arranca da terra sem nos pedir licença?

Sou uma criatura fraca e efêmera, feita de barro e sonhos.
Mas sinto em mim o turbilhonar de todas as forças do Universo.
Antes de ser despedaçado, quero ter um instante para abrir os olhos e ver.
Minha vida não tem outro objetivo.

Quero achar uma razão de viver, de suportar o terrível espetáculo diário da doença,
da fealdade, da injustiça e da morte.
Vim de um lugar obscuro, o Útero;
vou para outro lugar obscuro, a Sepultura.

Uma força me atira para fora do abismo negro;
outra força me impele irresistivelmente para dentro dele."

(KEVITZ, Ed René, Vivendo Com Propósitos, Ed. Mundo Cristão, p. 3.)





sábado, 27 de setembro de 2014

Recontextualização

"Teologia Bíblica
Como outras disciplinas dentro dos estudos bíblicos, a teologia bíblica possui uma história complexa e controvertida.[71] Krister Stendahl, o ex-reitor da Harvard Divinity School, num artigo bastante citado do The Interpreter’s Dictionary of the Bible, afirma que os estudiosos deveriam distinguir entre “o que significou e o que significa”.[72] O pano de fundo de tal afirmação foi a conclusão de Stendahl de que a Bíblia é tão estranha à nossa cultura que somente a reinterpretação poderia mante-la viva. Jon Levenson também defende a legitimidade da “recontextualização” e da “reapropriação”, que afirma que um texto pode e deveria significar seja lá o que for que uma comunidade religiosa precise que ele signifique para se manter viva. Para Levenson, a recontextualização é legítima mesmo quando contradiz o que um autor pretendeu dizer a princípio."

http://rebeldiametafisica.wordpress.com/2013/01/31/por-que-os-estudos-biblicos-devem-terminar-critica-literaria-e-teologia-biblica/

domingo, 7 de setembro de 2014

A Escritura - Tradição Oral

Karen afirma:

"As Escrituras judaicas e o Novo Testamento começaram ambos como proclamações orais, e mesmo depois que foram postos por escrito (após o século VII a.C. com o movimento deuteronomista do rei Josias), restava muitas vezes uma tendência à palavra falada, presente em outras tradições."

Assim nasceu a bíblia: uma tradição oral que era passada de geração em geração sem, obviamente, qualquer compromisso com exatidão ou comprovação de fatos, apenas verdades sendo incutidas nas gerações posteriores com o fim de fomentar o nacionalismo e a religiosidade da nação israelense.

Karen continua:

"(...) as pessoas temiam que Escrituras "escritas" estimulassem a inflexibilidade e a certeza irrealista, estridente. O Conhecimento religioso não pode ser comunicado, como outras informações, pelo simples exame da página sagrada."

Quando a tradição oral de Israel passou a ser colocado no "papel", ela deixou de ser uma expressão de transcendência religiosa e passou a ser um documento, um contrato, frio e inflexível. Isto, certamente, introduziu, na religião, um conceito com o qual ninguém se preocupara antes: se o que está escrito é verdade ou não, é fato ou mito.

Esta passagem (da tradição oral para a escrita) não agradou a muitos anciãos de Israel. Um deles escreve, no século VII a.C., contemporâneo ao rei Josias, o seguinte:

"Como, pois, dizeis: Nós somos sábios, a lei do Senhor está conosco? Eis que em vão tem trabalhado a falsa pena dos escribas.
Os sábios foram envergonhados, foram espantados e presos; eis que rejeitaram a palavra do Senhor; que sabedoria, pois, teriam?"

Este ancião chamava-se Jeremias (o profetas). Seu protesto encontra-se em Jer. 8:8,9.

A velha máxima "vale o que está escrito" não deve ser aplicado à Palavra de Deus. Quando Jeremias protesta contra o escrever a revelação, ele quer dizer que a revelação divina é sempre contemporânea, atende a aspirações na geração que a busca, envia uma promessa que vai ao encontro dos anseios reais daquele povo naquele tempo, e portanto não deveria ser congelado na escrita para que futuras gerações fossem obrigadas a crer em promessas que já não se aplicam à sua época.

Assim eram os profetas: proclamavam dos montes e oiteiros, jamais mandavam carta ou bilhete. 

Da mesma forma os evangelhos e as cartas paulinas: não foram escritas para serem adoradas. Os seus autores jamais pensaram que dois séculos depois eles seriam considerados sagrados ou infalíveis.Eles escreveram para a sua época, direcionado às pessoas certas, aos problemas específicos. Foram escritos para orientar os novos cristãos, dar-lhes um ponto de partida na caminhada da nova "seita". A teologia foi fundada em torno destes escritos, e não estes escrito é que fundaram a teologia, ou seja, Paulo não fundou uma teologia, a teologia é que foi elaborada, ao longo de vários séculos posteriores, em torno das simples cartas paulinas.Uma diferença fundamental. 



Karen Armstrong, A Bíblia (uma biografia), p. 9/10, 29.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

As Escrituras vivas

Com a palavra, a escritora Karen Armstrong:

"Desde o princípio, autores bíblicos sentiram-se livres para rever os textos que haviam herdado e deram-lhes significados inteiramente diferentes. Exegetas posteriores apresentaram a Bíblia como um modelo para os problemas de seu tempo".


A Bíblia é a expressão da verdade, portanto não pode ser engessada por uma teologia dogmática e inquestionável, como costumam pregar as igrejas mais interessadas em perpetuar o status hierárquico de sua doutrina a discutir formas atuais de rever os princípios das Escrituras Sagradas.


Continuando com Karen:


"A Bíblia "provava" ser sagrada porque as pessoas descobriam continuamente novos meios de interpretá-la e julgavam que esse conjunto difícil e antigo de documentos lançava luz sobre situações que seus autores originais jamais poderiam ter imaginado. A revelação era um processo incessante; não ficava confinada a uma teofania (manifestação divina) distante no monte Sinai; exegetas continuavam a tornar a Palavra de Deus audível em cada geração."


As Escrituras são inspiradas não porque contêm elementos sobrenaturais ou fórmulas mágicas, mas porque podem ser interpretadas no tempo e no espaço sociocultural que a contém. Os judeus buscavam interpretar a ação de Deus à luz da revelação, criando, a partir dai, novos rumos e interpretações que mantiveram o povo unido, ao londo de tantos séculos, pela fé em Javeh.


Gosto muito do versículo "EM TUDO DAI GRAÇAS". Não significa que, ao recitá-lo, Deus vai intervir "poderosamente" em uma situação desfavorável, mas o simples pensamento e reflexão sobre estas palavras bíblicas sempre me trouxe plenitude e paz interior pelo qual jamais duvidei que estas palavras fossem inspiradas por Ele.


Finalizando com Karen:


"Quando o templo dos judeus foi destruído (primeiramente pelos babilônios, em 586a.C. e depois pelos romanos em 70d.C.), eles tiveram de encontrar uma nova maneira de descobrir shalom (completude que traz a paz) num mundo trágico  e violento (...) a cada vez a destruição levou a um intenso período de atividade de Escritura, à medida que eles procuravam a cura e a harmonia nos documentos que se tornariam a Bíblia."


Armstrong, Karen, A Bíblia (Uma Biografia), p. 11/13.


Conheça a escritora numa palestra intitulada "A perdida arte do diálogo" :


https://www.youtube.com/watch?v=Y_aRxiFJEVk



domingo, 31 de agosto de 2014

Apenas um talvez...

Talvez a renovação da fé necessite dos seguintes passos:

1.Acreditar que Deus é uma presença real (porém  um Deus vivido a cada dia no milagre da vida e das oportunidades que se nos oferece e não um Deus antropomórfico - que ama, odeia, se vinga, mata, se arrepende, faz accepção de um povo em detrimento aos outros - ou um Deus maniqueísta - que castiga os maus e dá presentes aos bons a partir de uma natureza criada a partir de si mesmo, sua imagem e semelhança).

2.Aproveitar as velhas tradições bíblicas, e de outras formas de apreender Deus - como as religiões orientais - e evoluir no pleno conhecimento da essência divina, descartando os preconceitos que fazem  com que as religiões "reveladas" - cristianismo, judaísmo, islamismo -  se transformem em bunkers (casamatas) contra as que professam diferentes formas de adoração.

3.Partir do princípio real do cristianismo baseado nas atitudes e palavras de Jesus, e não na interpretação de Paulo (amigo de Roma, e que criou uma doutrina para alçar aquela nova fé no Homem de Nazaré à condição de religião universal, bem ao gosto das pretensões imperialistas romanas, posteriormente manipulada, com muita habilidade, pelo imperador Constantino ao transformar o "caminho" numa estrutura de poder e dominação.

4.Acreditar que Jesus nos trouxe uma mensagem real de compaixão, solidariedade e fé, e que com esta mensagem extremamente simples ele transformou o pensamento e as atitudes de sua época (tão simples era esta mensagem que  Paulo e João evangelista precisaram carregar numa teologia grandiosa, diferente da vida simples levada por Jesus e bem ao gosto do pensamento imperialista dominante, transformando-o em: Verbo e Filho de Deus, Absoluto, Magnífico, Príncipe, Rei, Salvador, o próprio Deus na Trindade, o Ressurreto - que venceu a morte, Aquele que está "à destra de Deus" e reina eternamente...). Não é difícil perceber a semelhança com o culto ao "divino" César e divindades pagãs da época - na estrutura e na inspiração.

5.Crer que Jesus nos deixou a mensagem de que Deus é real (quando na sua época só o que havia era desesperança e desespero) e que para se chegar à Ele é necessário simplesmente um "NOVO NASCIMENTO", da água (pureza, nos propósitos, nas atitudes e no tratamento) e do Espírito (compromisso real com Deus, disposição em mudar, em se transformar em alguém útil ao próximo - e consequentemente à sociedade).

Alerta: estes passos, aparentemente simplórios, são mais difíceis de se viver do que simplesmente aceitar a velha fórmula de salvação pela graça ensinada por Paulo. Talvez por isso os apóstolos, após a morte do mestre, vinculavam a salvação aos "frutos do Espírito" - que são obras, atitudes - e não a uma fé simples e, muitas vezes, descompromissada.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Experiência da morte


No livro de Eclesiastes está escrito: "Quem sabe que o fôlego do homem vai para cima e o dos animais vai para baixo da Terra?" (Ecl. 3:21).

Recentemente vivi uma experiência de "quase morte". 
Me submeti a uma intervenção clínica e precisei ser totalmente sedado.
Após receber a injeção com o sedativo tentei ficar o mais alerta possível para perceber o momento em que ia entrar no sono profundo. Não consegui.
Cerca de uma hora depois estava acordando aos poucos, zonzo, recobrando a consciência.
Impressionante este lapso de tempo em que NADA passou a existir para mim!
Eu mesmo, enquanto consciência, deixei de existir!
O tempo e o lugar deixaram de existir!
Enquanto as pessoas circulavam ao redor do meu corpo, eu simplesmente NÃO ESTAVA LÁ!
Eu estava em LUGAR NENHUM. Era como se nunca tivesse nascido.

Cristo ressuscitou!

Segundo Paulo, esta é a esperança da nossa fé. "Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé e a nossa pregação", afirmou.

Biologicamente o processo de ressuscitação é algo antinatural. As intervenções no corpo para uma restauração completa (e complexa) dos sistemas biológicos é algo que hoje só é possível de acreditar negando-se todo e qualquer saber humano na área da ciência.

Os judeus acreditavam na ressurreição do Estado Judeu (o vale dos ossos secos no livro de Ezequiel), não na ressurreição do corpo individual.

Foram os gregos que introduziram a noção de que o homem é composto de corpo e alma como unidades distintas (ainda que interligadas) e que a alma tem vida eterna.

Posteriormente uma seita judaica, a dos fariseus, incorporou a noção da ressureição pós morte (em oposição a outra seita - a dos saduceus - que não acreditavam).

Jesus, judeu confesso, Aquele que veio para "as ovelhas perdidas da casa de Israel", trouxe uma mensagem de ressurreição espiritual para o povo judeu baseado no estabelecimento do esperado (pelos judeus) Reino de Deus na Terra, não em um lugar distante, mas AQUI e AGORA: "dos que aqui estão alguns não provarão a morte antes que vejam vir o Reino de Deus".

Há uma parábola interessante na Bíblia (João capítulo 3): o encontro
de Jesus e o "mestre" Nicodemos.

Nicodemos quer saber como herdar o Reino de Deus. Jesus afirma: "Na verdade te digo que aquele que não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus" (João 3:3).

Seria um caso de ressurreição do corpo? Entrar no ventre da mãe e voltar a ser um bebezinho?

Se a história, relatada por João, terminasse aqui, certamente estaríamos especulando hoje se este "novo nascimento" enseja um ato sobrenatural: voltar a ser bebê.

Mas João continua com o relato e então ficamos sabendo que Jesus estava usando uma parábola (alegoria) para falar de coisas espirituais, e não terrenas.

Diante da ingenuidade de Nicodemos Jesus, pacientemente e cheio de compaixão, explica: "Na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus" (3:5).

Não era sobre coisas sobrenaturais que Jesus falava, mas espirituais.

Novo nascimento, assim como ressurreição, são processos espirituais: a água significa a pureza, o Espírito a renovação do velho homem a partir de uma relação íntima com Deus.

Não é Cristo quem precisa ressuscitar, mas NÓS (assim como não é Cristo quem precisa nascer de novo).

Ainda que pacientemente, Jesus ironiza aquele homem culto, devoto, porém tolo: "Tu és MESTRE de Israel e não sabes disso?" (3:10)...

JESUS NÃO INSULTA NOSSA INTELIGÊNCIA.

Acreditar que um homem pode ressuscitar em corpo após a morte é o mesmo que acreditar que ele pode nascer de novo voltando ao útero materno.

Jesus poderia estar nos dizendo: Vocês são tão inteligentes, avançaram tanto nas ciência, no conhecimento biológico do processo da vida e da morte, e ainda acreditam nisto?

Há outra história para ainda entender melhor: No livro de Mateus, o autor afirma que "as estrelas e o sol cairão..." na vinda do Filho do Homem.

Para um homem de sua época, acostumado a ver o sol "cair", se "levantar" e fazer uma órbita circular sobre sua cabeça todos os dias, nada mais natural que acreditar que o sol está preso por algum fio invisível no céu e que um dia esse fio possa se romper e ele, literalmente, caia.

Copérnico (e posteriormente Galileu) mostraram à igreja que a Terra não é o centro do universo e que também não é o sol que gira em torno da Terra

Não fazia mais sentido afirmar que o sol se move no firmamento em relação à Terra, pois é justamente o contrário.

Se o autor de Mateus fosse fazer uma revisão de seu texto nos dias de hoje, certamente não desprezaria esta importante descoberta científica.







domingo, 20 de julho de 2014

Adão e Eva foram criados antes ou depois dos dinossauros?

Adão e Eva viveram antes ou depois dos dinossauros?

Minha filha, de 13 anos, me surpreendeu com esta difícil pergunta.

Durante minha vida ativa como membro de igreja sempre acreditei que o que estava escrito na bíblia aconteceu exatamente como relatado. A fé dos crentes que praticam uma denominação depende fundamentalmente disto.

Uma vez que os cristãos são, por princípio dogmático, proibidos de considerar outras formas de interpretarem a bíblia para crer cegamente na tradição exatamente como sempre fizeram os judeus (apesar de Jesus ter afirmado que "o Espírito sopra ONDE QUER"), é muito constrangedor se continuar afirmando que as histórias bíblicas são tratados de fatos e eventos documentais.

Isso apenas contribui para aumentar o abismo entre ciência e fé pois pressupõe que um cientista não pode ser um homem de fé e nem um cristão acatar as descobertas científicas (principalmente no campo da arqueologia que muito tem contribuído para novas descobertas no campo da história dos povos antigos).

Sabe-se, hoje, que os épicos bíblicos tiveram como base e referência elementos históricos da época em que foram escritos (as cidades, os costumes dos povos, a geografia local, etc) e a partir dai foram construídas para formar uma consciência religiosa e nacionalista com o intuito de colocar o povo de Israel no centro das expectativas e atenções do mundo (como o é até os dias de hoje).

Podemos colocar nesta categoria as histórias do Gênese, o Êxodo, a conquista de Canaã por Josué, os Juízes (Sansão), etc.

Voltemos a Adão, Eva e os dinossauros.


Os cientistas colocam o início da formação do planeta Terra em torno de 4,5 bilhões de anos.


O aparecimento dos dinossauros teria sido em torno de 230 milhões de anos até sua extinção repentina a 144 milhões.



De acordo com a ciência, o gênero HOMO apareceu em torno de 4 a 1 milhão de anos, porém as etapas consideradas evolutivas teriam acontecido a partir de 500 mil a 8 mil (Idade da Pedra Lascada - Paleolítico), 8.000 a 5.000 anos (Nova Idade da Pedra - Neolítico) e 5.000 a 4.000 anos (Idade dos Metais). A partir dai termina a pré-história para ter início a expressão da linguagem escrita, a história propriamente dita (começo das civilizações sumérias e caldeias na região da Mesopotâmia).

Do lado da bíblia, calculando-se o surgimento de Adão e Eva a partir das genealogias, teríamos que Deus criou o homem a aproximadamente 6.000 anos atrás.

Se tentarmos conciliar os dois relatos (o científico e o bíblico) teremos que o homem foi criado (biblicamente) naquele período em que a ciência afirma que já começava a manusear os metais (fabricação de utensílios e armas), domesticar animais (não mais viver exclusivamente da caça e pesca) e mudança de uma cultura nômade (tribal) para sedentária (concentração de pequenas populações em cidades, domínio da agricultura e noções de organização e hierarquia como forma de sobrevivência em grupo).

Parece, diante do exposto, que somos obrigados a tomar uma posição diante de duas explicações tão conflitantes sobre a orgiem do homem na Terra. Isso levanta a velha rixa entre os criacionistas (cristãos) e os evolucionistas (ou darwinistas), discípulos do naturalista inglês  Charles Darwin (século XIX).

Voltando à pergunta (se Adão e Eva foram criados antes ou depois dos dinossauros), me pareceu mais honesto, em respeito à VERDADE, responder que ciência e religião são campos distintos e por isso não há como comparar datas, eventos e teorias. Disciplinas diferentes não podem ser tratadas como iguais.

A VERDADE da criação de Adão e Eva expressa uma fé em que o homem foi criado à imagem e semelhança de seu criador, o Senhor Deus, único, verdadeiro, suficiente em si mesmo.

A VERDADE da ciência se baseia em estudos arqueológicos, pesquisa de laboratório, relatos de textos históricos antigos, costume, cultura, habitat dos povos antigos no contexto das eras geológicas.

A religião se preocupa exclusivamente (ou deveria) em responder DE ONDE VIM, O QUE ESTOU FAZENDO AQUI E PARA ONDE VOU, a ciência em responder O QUE ESTIVEMOS FAZENDO, DE FATO, DURANTE ESTE PERÍODO.

O cristianismo atual deve aceitar as histórias bíblicas como verdades em si mesmas, sem a necessidade de comprovação científica como se fosse um documento necessitando de aval e autenticação para ter "fé pública". Os que pensam assim, de fato, não creem que a bíblia é A VERDADE suficiente e fiel naquilo em que se propõe a ensinar: que Deus está presente (e sempre esteve) na história da criação (religião) e evolução (ciência) da humanidade.

À parte a discussão religiosa sobre a essência de Deus (dos judeus, dos cristãos, dos budistas, dos espiritualistas), e todo antropoformismo que carregue, a VERDADE é que ELE É (usando uma expressão particularmente bíblica), foi percebido e apreendido em todas as era, em todas as culturas por aquilo que representou (e ainda representa) para a sobrevivência do homem, e graças a esta VERDADE evoluímos da barbárie para a civilidade criando leis, ética, respeito, organização e, o mais importante, perspectivas para um FUTURO CADA VEZ MELHOR.

A ciência nos faz viver mais e com mais conforto, a religião nos dá segurança de que há um sentido em viver, a despeito de qualquer evidência contrária.












quinta-feira, 3 de julho de 2014

Mithos religiosus

Religião e mitologia se confundem.
Não sei se é correto afirmar que religião É mitologia, mas parece não está muito longe disso.

Mitologia sempre expressou aquilo que o LOGOS (conhecimento, certeza, fato) não podia satisfazer.
O homem é um ser MYTHOS (sentimento, alma, fé), e portanto é natural que sempre tenha recorrido a símbolos mitológicos para expressar sua insuficiência diante dos fenômenos transcendentes (a morte, a perda, o sofrimento, a busca de sentido para a existência).

Após alguns milhares de anos ainda somos seres que procuram símbolos míticos para expressar sentimento. 

Porém nada há de errado com a mitologia. O que mudou foi a maneira como o mundo passou a interpretar a coisa.

Até o século XV as pessoas celebravam a mitologia não como uma verdade a ser crida, mas como uma expressão de seu ser religioso diante do TODO incompreensível, insondável, Àquele que era percebido no mais recôndito da experiência humana, tanto coletivamente quanto pessoal. Realidade e mitologia estavam intimamente atados. O dia a dia das pessoas era um ritual aos deuses que sustentavam a vida em sua plenitude e davam sentido a cada expressão da atividade humana.

Foi à partir deste século, porém, que a visão de mundo se modificou (e com ela a visão sobre religião).

As descobertas científicas iniciaram um rompimento entre mitologia e realidade de forma indelével. Criou-se o conceito formal de VERDADE associado apenas a fatos que pudessem ser cientificamente comprovados. Esse processo se consolidou com a inauguração da imprensa escrita: colocados no papel, documentalmente, as histórias tinham que ser aferidos, comprovados. Havia, agora, um compromisso com a nova sociedade tecnicista e comercial, onde as formas de se relacionar passavam a ser firmadas através de contratos  registrados em cartório para que pudessem "ter fé".

Essa nova visão além de destruir o sentido ritualizado e simbólico da religião, inaugurou uma nova postura frente à religião e que persiste até hoje:  

1.O crente precisa CRER que aquilo que ele lê na bíblia é uma verdade factual (aconteceram DE FATO), caso contrário está indo de encontro à verdade;

2.O cético que passou a depreciar as histórias bíblicas como nocivos a uma sociedade que não pode continuar acreditando em lendas e mentiras se quiser progredir tecnologicamente rumo a uma religiosidade utilitária.  

Tanto um quanto o outro ponto de vista são posturas essencialmente infantis diante de um contexto muito maior que qualquer compreensão que possamos ter sobre temas transcendentes (Deus, vida eterna, morte).

Religião é CAMINHO (Atos 19:9, 23; 22:4; 24;14), não um fim em si mesmo, algo sobre o qual devemos ter expectativas presente ou futura no sentido literal.

Quando os símbolos religiosos passam a ser sacralizados como verdades absolutas e imutáveis, também passam a ser idolatrados. Como consequência Deus, na sua suficiente incompreensão, passa a ser antropomorfizado e adorado como qualquer ídolo das antigas civilizações. Adorar Deus não satisfaz o Seu ego (ainda que este conceito seja mais uma antropomorfização), mas o nosso. 

Religião é para ser ritualizada (não como fato, mas como verdade da alma), vivida, praticada com atos de solidariedade, compreensão e amor.

Se era intensão de Jesus ser adorado como Deus teria ele nascido em uma manjedoura, comido com os pecadores, vivido com um humilde carpinteiro em uma cidadezinha pobre, padecido como um ladrão e morrido como um pária? 

Séculos de barbaridades cometidas "em nome de Deus" demonstram que durante este período tivemos mais "adoradores de Deus" do que praticantes e ouvintes de seus ensinamentos: muitos estão dispostos a adorá-lo, mas poucos a ouví-lo.










quarta-feira, 21 de maio de 2014

Busca pessoal

Deus vem se tornando cada dia, em minha busca pessoal, uma realidade mais presente.

Há uma grande frase que diz: "é preciso esvaziar o que está cheio, e encher o que está vazio".

Estamos completamente impregnados de dogmas, "verdades" inquestionáveis, doutrinas que nos acorrentaram a velhos símbolos do passado religioso e a interesses os mais difusos e inconfessáveis possíveis.

Infelizmente, para os cristãos atuais, é pouco as palavras de Jesus; palavras autênticas de amor ao próximo e a Deus a partir de um novo nascimento, pessoal, livre... um auto-compromisso em amor perene.

A humanidade é criadora de ídolos.

Ao invés de reconhecer Deus nas palavras de Jesus, divinizou a pessoa de Cristo e antropomorfizou o divino,  transformando em um mero "ser" aquele (ou aquilo) que é insondável, inimaginável, aprisionando-o, ironicamente, nos limites do tempo e espaço.

A divinização da pessoa de Cristo esvaziou o conteúdo da sua mensagem.

A pós-modernidade tecnológica nos levou ao fundo do poço da desesperança, indiferença e niilismo, e a religião está à margem desta demanda espiritual: ou descamba para o fundamentalismo, ou para a intolerância, ou para a completa omissão com a raiz dos sofrimentos humanos, construindo templos vazios de sentido e propósito real.

A religião esqueceu-se de duas verdades fundamentais:

1."A religião pura e imaculada para com Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo" (Tia 1:27) - primeiramente compromisso com o outro em todas as áreas da existência humana (social, econômica, política, educacional, saúde, amparo, proteção, intelectual), depois um compromisso consigo mesmo de buscar a excelência em todas as coisas como um culto pessoal a um Deus que é essencial à vida.

2."Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança" (Gal.5:22) - Notem a singularidade: "fruto" e não frutos. Tiago coloca questões práticas da vida. Alguém que nasceu de novo é alguém que demonstra essa mudança com mudança de paradigmas.

Deus espera que a religião se converta!






quarta-feira, 30 de abril de 2014

A partir do NADA!

Até a antiguidade grega, acreditava-se que Deus era o organizador do cosmos, sendo este eterno como Aquele.
 
A busca por Deus se refletia, portanto, numa caminhada de reflexão e contemplação da natureza através da qual a alma humana se eleva até o encontro purificador e salvífico com o seu criador.
 
Com a ascenção do cristianismo ao patamar de religião oficial do estado romano (século IV d.C.), houve a necessidade de se definir uma teologia própria, oportunamente inquestionável, afinal adquirira status político e social. Era mister fundamentar uma identidade própria que estabelecesse uma mensagem objetiva, clara, de fácil  assimilação e que fosse ao encontro dos anseios dos interlocutores.
 
Neste contexto foram sendo firmados os dogmas da igreja ortodoxa: a divindade de Jesus, a santíssima trindade, o cânon, o culto à Maria, o celibato, etc.
 
Foi nesta época, também, que a ideia dos antigos filósofos gregos sofreu uma mudança radical: Deus não é mais o organizador (como pensavam) mas aquele que criou o cosmos à partir do...

Nada!
 
Em um momento qualquer, na atemporalidade de Sua existência, Deus resolveu criar todas as coisas, sem qualquer premissa anterior.
 
Porém, a partir desta nova forma de entender a criação como ato divino absoluto, dois problemas passaram a ser discutidos nos círculos daqueles que ainda resistiam a esta idéia:
 
1.Se nada existia antes, então o mal foi criação de Deus?
 
2.Se Deus criou todas as coisas, é possível dissassociar Deus do objeto criado, colocando o criador e a humanidade em lados opostos, surgindo como consequência, a figura do mediador, cuja atribuição passou a ser habilmente exercido pela igreja.
 
 
 
 
 
 
 
 

sábado, 26 de abril de 2014

A Ausência

A ausência derruba qualquer expectativa, apego ou pessoalidade, aponta para um vazio a ser preenchido, a certeza de que a verdade está além.

A ausência de Deus fez com que Israel buscasse Sua transcendência em cada época da sua existência, revendo, reinterpretando, atualizando e reinventando a Lei.


Quando Moisés recebeu a Torá Escrita no monte Sinai, imediatamente uma nova Torá teve início: a Torá Oral.

A Torá Oral não era a mera repetição da Lei (a Torá Escrita), mas as discussões posteriores em torno da Lei buscando ampliá-la e atualizá-la constantemente.

Na Torá Escrita, se considerava o que Deus DISSE!

Na Torá Oral, o que Deus ESTÁ DIZENDO?

Após a destruição de Jerusalém (70 d.C.) os judeus sentiram a necessidade de registrar essas discussões em torno da Lei, que era feita em escolas de rabinos, preocupados em que a tradição não se perdesse com a diáspora: editaram a Mishnah (século II).

Três séculos depois um novo grupo de rabinos entendeu que a Mishnah continha muitos pontos de difícil interpretação e que precisavam de uma nova adaptação aos novos tempos: publicaram o Talmud (que teve duas versões: o Talmud de Jerusalém (séc. V) e o Talmud da Babilônia (séc. VI).


É importante destacar que estas novas interpretações da Lei não tinham a pretensão de a substituírem, pelo contrário, eram um complemento dos textos sagrados, uma espécie de versão ampliada.

Foi desta forma que a fé de Israel sempre se manteve vida, atual, participante da história do povo, e não uma tradição distante e impessoal em que as pessoas deveriam acreditar fria e cegamente.

Os judeus tinham a consciência de que a Lei não era imutável. Adorar a própria Lei seria considerado um ato idólatra.

A bíblia identifica um momento histórico em que essa reinterpretação da Lei acontece: com Esdras, após o cativeiro babilônico (586 a.C.) - o livro de Deuteronômio significa "segunda Lei".

O Novo Testamento, como o nome diz, é o Testamento (velho) reeditado, ou seja, no início da era cristã os novos judeus convertidos interpretavam Jesus dentro do contexto do judaísmo (o messias), sem a intensão de criar uma nova religião ou crença, sendo Jesus, portanto, a nova esperança do Deus ausente que não esquecera do seu povo amado e que agora se manifestava cumprindo sua promessa ao enviar o Messias prometido aos profetas.

O próprio Jesus nos dá o exemplo de como é importante manter atualizada a Lei a partir de uma reinterpretação: "o sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado" (Marcos 2:27).

Constantino no Concílio de Nicéia (Séc. IV d.C.)
Tudo isso mudou quando um homem inteligente, culto e temperamental deliberadamente proclamou, através de um movimento solitário, o rompimento com o judaísmo: Paulo de Tarso. Movimento que, porém, deixou de ser solitário quando um imperador astuto aproveitou para proclamar, politicamente, uma nova religião: o cristianismo.