quinta-feira, 11 de junho de 2015

Resultados

As instituições sobrevivem de resultados.

Instruir os fieis a construir, dentro de si, nos seus pensamentos e atitudes do dia a dia, o caráter de Deus, ensinando que todos nós somos uma centelha de Deus e que precisamos expressar Deus em nossas ações a cada momento não produz resultados imediatos, portanto não interessa à instituição.

A fé em Cristo para se salvar do inferno, isto sim, produz resultados imediatos.

O medo de morrer sem salvação leva as pessoas a procurarem a instituição em busca de redenção instantânea, e esta redenção deve ser renovada a cada culto, a cada ida a esta instituição, atendendo aos dogmas e contribuindo financeiramente para a existência desta organização.

No fundo, uma reedição da venda de indulgências combatida por Lutero no século XVI durante o movimento protestante.

Em consequência há um êxtase coletivo, como aquele êxtase produzido pelas drogas.

Ninguém questiona, ninguém evolui, ninguém contesta... por causa do MEDO.

É o princípio do medo que faz com que as instituições se estabeleçam, com todas as suas regras e hierarquias e privilégios.

Satanás e tudo associado a ele (inferno, tentação, doenças, etc) serve bem a este propósito ao ponto de podemos questionar se o diabo não é o principal acionista (sócio) das principais instituições eclesiásticas.

Assim como numa escola construir o saber é uma tarefa difícil e negligenciada pelas instituições de educação, preferindo-se os resultados imediatos que a ameaça de perder o ano produz, as instituições religiosas negligenciam a construção do caráter de Cristo.

"De tudo o que se têm ouvido, o fim é: teme a Deus e guarda os Seus mandamentos; porque este é o dever de todo homem." Eclesiastes 12:13

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Essência da vida

Salomão, a quem se atribui ter escrito o livro de Eclesiastes, afirma:
"... não há limites para fazer livros... (Ecl. 12:12).

E ainda: "De tudo o que se tem ouvido, o fim é: teme a Deus e guarda os seus mandamentos; porque este é o dever de todo homem." (Ecl. 12:13).

O homem tem um caminho e um dever: seu caminho não tem limites, porque o conhecimento não tem fim; seu dever é a busca incessante e incansável pela essência da vida, e essa busca só pode acontecer fora se si mesmo, além das coisas que são visíveis.

O homem foi feito para CAMINHAR... caminhar sempre, sem nunca parar diante de "verdades" ditas como absolutas, imutáveis e inquestionáveis. É no caminhar que consiste o sentido da vida, e não no chegar em algum lugar.

Assim o filósofo grego contemporâneo, Nikos Kazantizakis expressou sua busca:

"Por uma só coisa anseio:
aprender o que se esconde atrás dos fenômenos;
desvendar o mistério que me dá a vida e a morte;
saber se uma presença invisível e imota se esconde além do fluxo visível e incessante do mundo.

Pergunto e torno a perguntar, golpeando o caos:
quem nos planta nessa terra sem pedir licença?
Quem nos arranca da terra sem nos pedir licença?

Sou uma criatura fraca e efêmera, feita de barro e sonhos.
Mas sinto em mim o turbilhonar de todas as forças do Universo.
Antes de ser despedaçado, quero ter um instante para abrir os olhos e ver.
Minha vida não tem outro objetivo.

Quero achar uma razão de viver, de suportar o terrível espetáculo diário da doença,
da fealdade, da injustiça e da morte.
Vim de um lugar obscuro, o Útero;
vou para outro lugar obscuro, a Sepultura.

Uma força me atira para fora do abismo negro;
outra força me impele irresistivelmente para dentro dele."

(KEVITZ, Ed René, Vivendo Com Propósitos, Ed. Mundo Cristão, p. 3.)





sábado, 27 de setembro de 2014

Recontextualização

"Teologia Bíblica
Como outras disciplinas dentro dos estudos bíblicos, a teologia bíblica possui uma história complexa e controvertida.[71] Krister Stendahl, o ex-reitor da Harvard Divinity School, num artigo bastante citado do The Interpreter’s Dictionary of the Bible, afirma que os estudiosos deveriam distinguir entre “o que significou e o que significa”.[72] O pano de fundo de tal afirmação foi a conclusão de Stendahl de que a Bíblia é tão estranha à nossa cultura que somente a reinterpretação poderia mante-la viva. Jon Levenson também defende a legitimidade da “recontextualização” e da “reapropriação”, que afirma que um texto pode e deveria significar seja lá o que for que uma comunidade religiosa precise que ele signifique para se manter viva. Para Levenson, a recontextualização é legítima mesmo quando contradiz o que um autor pretendeu dizer a princípio."

http://rebeldiametafisica.wordpress.com/2013/01/31/por-que-os-estudos-biblicos-devem-terminar-critica-literaria-e-teologia-biblica/

domingo, 7 de setembro de 2014

A Escritura - Tradição Oral

Karen afirma:

"As Escrituras judaicas e o Novo Testamento começaram ambos como proclamações orais, e mesmo depois que foram postos por escrito (após o século VII a.C. com o movimento deuteronomista do rei Josias), restava muitas vezes uma tendência à palavra falada, presente em outras tradições."

Assim nasceu a bíblia: uma tradição oral que era passada de geração em geração sem, obviamente, qualquer compromisso com exatidão ou comprovação de fatos, apenas verdades sendo incutidas nas gerações posteriores com o fim de fomentar o nacionalismo e a religiosidade da nação israelense.

Karen continua:

"(...) as pessoas temiam que Escrituras "escritas" estimulassem a inflexibilidade e a certeza irrealista, estridente. O Conhecimento religioso não pode ser comunicado, como outras informações, pelo simples exame da página sagrada."

Quando a tradição oral de Israel passou a ser colocado no "papel", ela deixou de ser uma expressão de transcendência religiosa e passou a ser um documento, um contrato, frio e inflexível. Isto, certamente, introduziu, na religião, um conceito com o qual ninguém se preocupara antes: se o que está escrito é verdade ou não, é fato ou mito.

Esta passagem (da tradição oral para a escrita) não agradou a muitos anciãos de Israel. Um deles escreve, no século VII a.C., contemporâneo ao rei Josias, o seguinte:

"Como, pois, dizeis: Nós somos sábios, a lei do Senhor está conosco? Eis que em vão tem trabalhado a falsa pena dos escribas.
Os sábios foram envergonhados, foram espantados e presos; eis que rejeitaram a palavra do Senhor; que sabedoria, pois, teriam?"

Este ancião chamava-se Jeremias (o profetas). Seu protesto encontra-se em Jer. 8:8,9.

A velha máxima "vale o que está escrito" não deve ser aplicado à Palavra de Deus. Quando Jeremias protesta contra o escrever a revelação, ele quer dizer que a revelação divina é sempre contemporânea, atende a aspirações na geração que a busca, envia uma promessa que vai ao encontro dos anseios reais daquele povo naquele tempo, e portanto não deveria ser congelado na escrita para que futuras gerações fossem obrigadas a crer em promessas que já não se aplicam à sua época.

Assim eram os profetas: proclamavam dos montes e oiteiros, jamais mandavam carta ou bilhete. 

Da mesma forma os evangelhos e as cartas paulinas: não foram escritas para serem adoradas. Os seus autores jamais pensaram que dois séculos depois eles seriam considerados sagrados ou infalíveis.Eles escreveram para a sua época, direcionado às pessoas certas, aos problemas específicos. Foram escritos para orientar os novos cristãos, dar-lhes um ponto de partida na caminhada da nova "seita". A teologia foi fundada em torno destes escritos, e não estes escrito é que fundaram a teologia, ou seja, Paulo não fundou uma teologia, a teologia é que foi elaborada, ao longo de vários séculos posteriores, em torno das simples cartas paulinas.Uma diferença fundamental. 



Karen Armstrong, A Bíblia (uma biografia), p. 9/10, 29.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

As Escrituras vivas

Com a palavra, a escritora Karen Armstrong:

"Desde o princípio, autores bíblicos sentiram-se livres para rever os textos que haviam herdado e deram-lhes significados inteiramente diferentes. Exegetas posteriores apresentaram a Bíblia como um modelo para os problemas de seu tempo".


A Bíblia é a expressão da verdade, portanto não pode ser engessada por uma teologia dogmática e inquestionável, como costumam pregar as igrejas mais interessadas em perpetuar o status hierárquico de sua doutrina a discutir formas atuais de rever os princípios das Escrituras Sagradas.


Continuando com Karen:


"A Bíblia "provava" ser sagrada porque as pessoas descobriam continuamente novos meios de interpretá-la e julgavam que esse conjunto difícil e antigo de documentos lançava luz sobre situações que seus autores originais jamais poderiam ter imaginado. A revelação era um processo incessante; não ficava confinada a uma teofania (manifestação divina) distante no monte Sinai; exegetas continuavam a tornar a Palavra de Deus audível em cada geração."


As Escrituras são inspiradas não porque contêm elementos sobrenaturais ou fórmulas mágicas, mas porque podem ser interpretadas no tempo e no espaço sociocultural que a contém. Os judeus buscavam interpretar a ação de Deus à luz da revelação, criando, a partir dai, novos rumos e interpretações que mantiveram o povo unido, ao londo de tantos séculos, pela fé em Javeh.


Gosto muito do versículo "EM TUDO DAI GRAÇAS". Não significa que, ao recitá-lo, Deus vai intervir "poderosamente" em uma situação desfavorável, mas o simples pensamento e reflexão sobre estas palavras bíblicas sempre me trouxe plenitude e paz interior pelo qual jamais duvidei que estas palavras fossem inspiradas por Ele.


Finalizando com Karen:


"Quando o templo dos judeus foi destruído (primeiramente pelos babilônios, em 586a.C. e depois pelos romanos em 70d.C.), eles tiveram de encontrar uma nova maneira de descobrir shalom (completude que traz a paz) num mundo trágico  e violento (...) a cada vez a destruição levou a um intenso período de atividade de Escritura, à medida que eles procuravam a cura e a harmonia nos documentos que se tornariam a Bíblia."


Armstrong, Karen, A Bíblia (Uma Biografia), p. 11/13.


Conheça a escritora numa palestra intitulada "A perdida arte do diálogo" :


https://www.youtube.com/watch?v=Y_aRxiFJEVk



domingo, 31 de agosto de 2014

Apenas um talvez...

Talvez a renovação da fé necessite dos seguintes passos:

1.Acreditar que Deus é uma presença real (porém  um Deus vivido a cada dia no milagre da vida e das oportunidades que se nos oferece e não um Deus antropomórfico - que ama, odeia, se vinga, mata, se arrepende, faz accepção de um povo em detrimento aos outros - ou um Deus maniqueísta - que castiga os maus e dá presentes aos bons a partir de uma natureza criada a partir de si mesmo, sua imagem e semelhança).

2.Aproveitar as velhas tradições bíblicas, e de outras formas de apreender Deus - como as religiões orientais - e evoluir no pleno conhecimento da essência divina, descartando os preconceitos que fazem  com que as religiões "reveladas" - cristianismo, judaísmo, islamismo -  se transformem em bunkers (casamatas) contra as que professam diferentes formas de adoração.

3.Partir do princípio real do cristianismo baseado nas atitudes e palavras de Jesus, e não na interpretação de Paulo (amigo de Roma, e que criou uma doutrina para alçar aquela nova fé no Homem de Nazaré à condição de religião universal, bem ao gosto das pretensões imperialistas romanas, posteriormente manipulada, com muita habilidade, pelo imperador Constantino ao transformar o "caminho" numa estrutura de poder e dominação.

4.Acreditar que Jesus nos trouxe uma mensagem real de compaixão, solidariedade e fé, e que com esta mensagem extremamente simples ele transformou o pensamento e as atitudes de sua época (tão simples era esta mensagem que  Paulo e João evangelista precisaram carregar numa teologia grandiosa, diferente da vida simples levada por Jesus e bem ao gosto do pensamento imperialista dominante, transformando-o em: Verbo e Filho de Deus, Absoluto, Magnífico, Príncipe, Rei, Salvador, o próprio Deus na Trindade, o Ressurreto - que venceu a morte, Aquele que está "à destra de Deus" e reina eternamente...). Não é difícil perceber a semelhança com o culto ao "divino" César e divindades pagãs da época - na estrutura e na inspiração.

5.Crer que Jesus nos deixou a mensagem de que Deus é real (quando na sua época só o que havia era desesperança e desespero) e que para se chegar à Ele é necessário simplesmente um "NOVO NASCIMENTO", da água (pureza, nos propósitos, nas atitudes e no tratamento) e do Espírito (compromisso real com Deus, disposição em mudar, em se transformar em alguém útil ao próximo - e consequentemente à sociedade).

Alerta: estes passos, aparentemente simplórios, são mais difíceis de se viver do que simplesmente aceitar a velha fórmula de salvação pela graça ensinada por Paulo. Talvez por isso os apóstolos, após a morte do mestre, vinculavam a salvação aos "frutos do Espírito" - que são obras, atitudes - e não a uma fé simples e, muitas vezes, descompromissada.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Experiência da morte


No livro de Eclesiastes está escrito: "Quem sabe que o fôlego do homem vai para cima e o dos animais vai para baixo da Terra?" (Ecl. 3:21).

Recentemente vivi uma experiência de "quase morte". 
Me submeti a uma intervenção clínica e precisei ser totalmente sedado.
Após receber a injeção com o sedativo tentei ficar o mais alerta possível para perceber o momento em que ia entrar no sono profundo. Não consegui.
Cerca de uma hora depois estava acordando aos poucos, zonzo, recobrando a consciência.
Impressionante este lapso de tempo em que NADA passou a existir para mim!
Eu mesmo, enquanto consciência, deixei de existir!
O tempo e o lugar deixaram de existir!
Enquanto as pessoas circulavam ao redor do meu corpo, eu simplesmente NÃO ESTAVA LÁ!
Eu estava em LUGAR NENHUM. Era como se nunca tivesse nascido.

Cristo ressuscitou!

Segundo Paulo, esta é a esperança da nossa fé. "Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé e a nossa pregação", afirmou.

Biologicamente o processo de ressuscitação é algo antinatural. As intervenções no corpo para uma restauração completa (e complexa) dos sistemas biológicos é algo que hoje só é possível de acreditar negando-se todo e qualquer saber humano na área da ciência.

Os judeus acreditavam na ressurreição do Estado Judeu (o vale dos ossos secos no livro de Ezequiel), não na ressurreição do corpo individual.

Foram os gregos que introduziram a noção de que o homem é composto de corpo e alma como unidades distintas (ainda que interligadas) e que a alma tem vida eterna.

Posteriormente uma seita judaica, a dos fariseus, incorporou a noção da ressureição pós morte (em oposição a outra seita - a dos saduceus - que não acreditavam).

Jesus, judeu confesso, Aquele que veio para "as ovelhas perdidas da casa de Israel", trouxe uma mensagem de ressurreição espiritual para o povo judeu baseado no estabelecimento do esperado (pelos judeus) Reino de Deus na Terra, não em um lugar distante, mas AQUI e AGORA: "dos que aqui estão alguns não provarão a morte antes que vejam vir o Reino de Deus".

Há uma parábola interessante na Bíblia (João capítulo 3): o encontro
de Jesus e o "mestre" Nicodemos.

Nicodemos quer saber como herdar o Reino de Deus. Jesus afirma: "Na verdade te digo que aquele que não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus" (João 3:3).

Seria um caso de ressurreição do corpo? Entrar no ventre da mãe e voltar a ser um bebezinho?

Se a história, relatada por João, terminasse aqui, certamente estaríamos especulando hoje se este "novo nascimento" enseja um ato sobrenatural: voltar a ser bebê.

Mas João continua com o relato e então ficamos sabendo que Jesus estava usando uma parábola (alegoria) para falar de coisas espirituais, e não terrenas.

Diante da ingenuidade de Nicodemos Jesus, pacientemente e cheio de compaixão, explica: "Na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus" (3:5).

Não era sobre coisas sobrenaturais que Jesus falava, mas espirituais.

Novo nascimento, assim como ressurreição, são processos espirituais: a água significa a pureza, o Espírito a renovação do velho homem a partir de uma relação íntima com Deus.

Não é Cristo quem precisa ressuscitar, mas NÓS (assim como não é Cristo quem precisa nascer de novo).

Ainda que pacientemente, Jesus ironiza aquele homem culto, devoto, porém tolo: "Tu és MESTRE de Israel e não sabes disso?" (3:10)...

JESUS NÃO INSULTA NOSSA INTELIGÊNCIA.

Acreditar que um homem pode ressuscitar em corpo após a morte é o mesmo que acreditar que ele pode nascer de novo voltando ao útero materno.

Jesus poderia estar nos dizendo: Vocês são tão inteligentes, avançaram tanto nas ciência, no conhecimento biológico do processo da vida e da morte, e ainda acreditam nisto?

Há outra história para ainda entender melhor: No livro de Mateus, o autor afirma que "as estrelas e o sol cairão..." na vinda do Filho do Homem.

Para um homem de sua época, acostumado a ver o sol "cair", se "levantar" e fazer uma órbita circular sobre sua cabeça todos os dias, nada mais natural que acreditar que o sol está preso por algum fio invisível no céu e que um dia esse fio possa se romper e ele, literalmente, caia.

Copérnico (e posteriormente Galileu) mostraram à igreja que a Terra não é o centro do universo e que também não é o sol que gira em torno da Terra

Não fazia mais sentido afirmar que o sol se move no firmamento em relação à Terra, pois é justamente o contrário.

Se o autor de Mateus fosse fazer uma revisão de seu texto nos dias de hoje, certamente não desprezaria esta importante descoberta científica.